Assistir ao documentário Violência Obstétrica – A Voz das Brasileiras, me fez ver o quão perto eu estive de ser uma vítima deste tipo de atendimento tecnocrata e hostil da obstetrícia no Brasil. Ouvir a história daqueles mulheres me fez perceber que, por um muito pouco, eu poderia ter participado do vídeo, com feridas físicas e emocionais, tais como as delas.
Hoje, percebo que, de certa forma, também, estava a ser violentada. Mas consegui mudar o rumo de nossa história. E o antídoto para este veneno chama-se informação.
Minha antiga médica obstetra dizia que só deveríamos conversar sobre o parto no final da gestação. Fugia das perguntas que eu sempre fazia a respeito dele e isso me incomodava demais. Até que um dia, depois de ler muito sobre partos naturais, comecei a cobrar respostas efetivas.
Eu: Você faz episiotomia de rotina?
Ela: Sim, não faço partos sem episio. Do contrário você ganharia sérios problemas de incontinência urinária.

Eu: E eu posso me movimentar durante o trabalho de parto?
Ela: Claro. Pode ficar na bola, na banheira… Mas no expulsivo precisa ficar deitada na cama.

Eu: E se eu não quiser tomar anestesia…
Ela: Sou sua amiga e vou te dar anestesia de qualquer jeito.
Eu: Eu não gostaria de fazer uso de ocitocina durante o parto, pode ser?
Ela: Ela é fundamental para ritmar suas contrações e torná-las efetivas. Vamos usá-la.

Eu: E se minha bebê não nascer até a 40ª semana? Posso esperar até 42?
Ela: Não. O único caso que me aconteceu assim, chegou até 41, mas fiz a mãe assinar um termo de responsabilidade pela vida de seu filho. O que podemos fazer se chegar na 40ª semana é tentar uma indução.

Eu: Mas quanto tempo você espera o trabalho de parto transcorrer sem me levar para uma cesárea?
Ela: No máximo 6 horas de indução. Depois disso se torna muito perigoso para o seu bebê.Puxa, você andou lendo, né?

Sai do consultório arrasada. O parto seria do jeito dela. Já me via deitada na cama, pernas no estribo, sem sentir as contrações, levando um belo corte do períneo e com alguém subindo em minha barriga para fazer manobras de Kristeller. Era exatamente o cenário que eu mais temia (depois da cesárea). Eu precisava encontrar uma saída, tinha certeza que o parto da Gabi seria um evento lindo e não traumático.
Foi neste momento que marquei uma consulta com minha atual médica. E sai de lá suspirando. Ela disse que o parto seria meu, eu tomaria as decisões, ela estaria lá só para me ajudar no que eu precisasse. Nunca mais voltei no outro consultório, ela nem me ligou para saber se eu bem… com certeza, sentiu em meus questionamentos que eu não estava feliz com seu protocolo de atendimento ao parto.

E não pensem que ela fazia dessa forma por causa dos valores do convênio. Apesar de me atender por ele, cobrava o parto por fora (a até hoje não sei o valor porque ela dizia que conversaríamos sobre o valor mais pra frente – quando eu não tivesse mais como voltar atrás???).
Pois bem. Gabi nasceu com quase 42 semanas de gestação. Em um trabalho de parto que durou umas 6 horas… Ou seja, as chances de eu ter parado em uma cesárea desnecessária eram totais. Afinal de contas, se ela induzisse o parto com 40 semanas, possivelmente ele teria durado bem mais de 6 horas.
Além disso, Gabi poderia ter ido direto para a UTI. Sim, porque o trabalho de parto só acontece quando o bebê está pronto para nascer e seu pulmão começa a liberar substâncias que fazem com que a mulher entre em trabalho de parto. Ela poderia ter sido arrancada do meu útero sem estar com seu pulmão completamente maduro. Pela DUM eu estava quase na 42ª semana, mas ela nem sempre está de acordo com a realidade do bebê. Por isso, passar da 40ª é muito normal.
Dá para entender como é sério essa história recorrente de se agendar cesáreas eletivas?

A violência obstétrica que sofri foi apenas através das ameaças por um parto cheio de intervenções. Mas poderia ter se tornado efetiva. Vi isso através da história das mulheres daquele documentário.
E afirmo, com toda a certeza, que a vacina contra esse mal foi a informação de qualidade. E é por ela que tenho lutado. É por ela que este blog existe hoje. É por ela que tenho me especializado a cada dia mais.

Quero levar informação para que outras mulheres tenham a mesma chance que tive de mudarem seus destinos. Quero que outras mulheres tenham o direito a fazerem suas próprias escolhas sem medo das ameaças infundadas dos médicos. Quero ajudar outras mulheres a se emponderarem e fugirem de sofrerem a violência obstétrica.
Esse é um trabalho de formiguinha. Mas estou completamente apaixonada, e não vou desistir.

Escrevo este post participando da Blogagem Coletiva prosposta pelo blog Desabafo de Mãe em comemoração da SMAM 2012.

Percebi que muitos mitos envolviam a amamentação quando, em uma das consultas à minha antiga G.O., ela fez questão de avisar: “Se não ler esse livro, não faço seu parto”. O livro era o Nana Nenê , de Gary Ezzo e, francamente, eu não entendi o que ele poderia ter a ver com o meu parto. Mas, curiosa que sou, li o tal livro.
Entre dicas sobre como deixar seu filho dormir sozinho no berço – sim, chorando – e outros aspectos da “moderna maternidade” – que diz que os pais não devem mudar em nada sua vida por causa dos filhos – o livro defendia a rotina e o horário para a amamentação. Então, entendi. Ela queria que eu aprendesse a ter horários de amamentação para que não precisasse procurá-la com dúvidas. “Isso vai evitar que você me ligue pela madrugada”, confessou ela mais tarde.

Os que conhecem minha história sabem: mudei de G.O. e nunca coloquei em prática as ideais do livro – nem recomendo a sua leitura. Mas toda essa história serviu para que eu entendesse que teria que seguir meus instintos sobre o que achasse que seria melhor para minha filha. E, entre essas coisas estão: amamentação em livre demanda, exclusiva até os 6 meses de idade e continuada até quando bem entendermos.

Percebi, então, a importância de disseminar este tipo de informação, muitas vezes distorcida ou condenada por muitos médicos – mesmo que incentivada pelo Ministério da Saúde. Porque, com informação de qualidade, cada mãe tem a liberdade de escolher o que achar melhor para seus filhos e ficar tranquila por ter feito suas próprias e conscientes escolhas.

Sempre fui uma pessoa indecisa. Passei boa parte da minha vida pesando os prós e contras das escolhas que precisava fazer, deixando para o minuto final a decisão. Em alguns momentos não queria abrir mão de determinada coisa para escolher por outra. Em certas ocasiões tive medo de me arrepender. E isso até em relação às coisas mais simples, como escolher o cardápio do jantar: “E se eu pedir pizza e depois ficar com vontade de comer hamburguer?” rs…. Coisas do tipo.

Mas a maternidade nos traz muitas coisas boas e, no meu caso, uma delas foi o poder e serenidade para tomar decisões. Parece coisa simples, né? Mas para mim nunca foi, e ser mãe me ensinou a lidar muito bem comas decisões e suas consequências.

Pensar no que é melhor para a Gabriela me fez tomar decisões que muitas vezes não agradam a todos. Sim, antigamente eu tinha essa tola pretensão. Hoje quase não a tenho mais. Digo quase porquem nem sempre é fácil dizer adeus a uma velha mania como esta. Quem sofre deste mal, bem sabe do que se trata.

Também aprendi a digerir as consequências de minhas escolhas. É fato que toda decisão envolve abrir mão de alguma opção. E o que antes era para mim um peso, é agora um sentimento agradável. Porque sei que tomo minhas decisões baseadas naquilo em que acredito e pensando fazer a melhor escolha. Todas as alternativas podem ser boas, mas existe uma melhor, mais adequada ao meu caso. E quando de lá da frente eu olhar para trás, estarei feliz em ter tomado as decisões que tomei. Isso não quer dizer que nunca erro. Errar faz parte do aprendizado e é ponto para nós também.

Abri mão da comodidade da cesárea e optei pelo parto natural porque sabia o quão importante ele seria para minha bebê e eu.

Então abri mão da carreira por um tempo para investir naquilo que é mais preciso para mim, minha filha.

Abri mão de dormir a noite inteira, porque ela ainda mama SIM, e continua a acordar à noite.

Abri mão de ter tempo para fazer o que eu quiser, porque quero sim estar sempre ao lado dela, criança precisa de mãe e ponto. E só vou colocá-la na escolinha no tempo em que eu achar isso correto.

Abri mão da comodidade, porque não vou comprar uma “papinha” pronta para minha filha, fechando os olhos e confiando na indústria alimentícia.

Esses são apenas alguns exemplos… Fazemos escolhas todos os dias, o tempo todo. Mas ser mãe me deixou empoderada para tomar as minhas, sem medo das consequências. Posso, “de boa”, escolher fazer uma comidinha gostosa e saudável em casa e descartar aquela pizza e hamburguer do delivery que me deixavam tão indecisa antes. E isso não tem preço.