boneca-que-amamenta

É só percorrer com o olhar as prateleiras em uma loja de brinquedos convencional e verá inúmeras bonecas que tomam mamadeira, porém nenhuma que amamenta. Se você procurar em uma loja de brinquedos educativos talvez possa encontrar alguns exemplares de bonecas artesanais que amamentam.

Mas por quê a amamentação não é vista como algo natural e que pode (e deve) ser ensinado às crianças? Por que todo esse grande tabu com relação a um ato tão importante e belo?

Sim, tabu. Porque há pouco tempo houve a maior polêmica por conta de uma boneca lançada no mercado americano e que pode ser amamentada pela criança através de  um colete com florzinhas no lugar das mamas. Como se isso fosse de alguma forma estimular a sexualidade precoce. A verdade é que toda a questão sexual está na cabeça dos adultos.

Aliás, vamos falar em estimular a sexualidade precoce? Que tal a boneca Barbie? Do alto de suas voluptuosas curvas, ela exibe um rosto maquiado, veste roupas sensuais e tem o Ken (ou seja lá que nome for),  forte e bonitão para ser seu par.

Infelizmente o aleitamento materno ainda é um tema que desperta muito preconceito. Nós, ativistas e especialistas da área, temos um longo caminho de conscientização a ser percorrido. Nada que nos assuste. Muito pelo contrário, nos estimula a lutar para que outras mães consigam ter sucesso e prazer através  da amamentação.

O que assusta, de fato, é ver profissionais no caminho inverso, desestimulando a amamentação exclusiva até os 6 meses e continuada até os 2 anos ou mais. E esse é um cenário que precisa ser mudado o mais rápido possível. Mas não é fácil mudar a mente de uma sociedade que aprende, desde pequena, que o  normal é  alimentar os bebês com mamadeira.

Neste Natal demos para Gabi e para minha sobrinha uma boneca artesanal, que além de amamentar seu próprio filho também o pari naturalmente. Sim, porque é simples, é natural e ninguém precisa se envergonhar disso.

Para quem estiver interessado comprei na Flor do Sul Bonecas e recomendo😉

Bjs

Entrevista que dei para a revista Claudia Bebê sobre plano de parto

Entrevista que dei para a revista Claudia Bebê sobre plano de parto

No meio deste ano, fui entrevistada pela revista Claudia Bebê a respeito de como o plano de parto havia sido importante para mim.

A matéria foi recentemente publicada no Bebe.com.br e coloco aqui o link para que você possa dar uma olhada.

O meu eu já publiquei aqui no blog. Ele foi fundamental para que  toda a equipe conhecesse e respeitasse minhas escolhas.  Mas não adianta simplesmente escrever um plano e jogar na mão de qualquer médico. A escolha por uma equipe humanizada e que respeite o seu protagonismo na hora do parto é fundamental.

Aliás, você, que está grávida e quer ter um parto normal, já bateu um papo com seu obstetra sobre suas condutas na hora do parto? No post sobre Motivos para optar por um parto humanizado, escrevi sobre as intervenções comumente usadas pelos médicos tradicionais, mas que são completamente desnecessárias. Elas atrapalham a normal evolução do trabalho de parto (podendo levar, até mesmo, a uma cesárea) e impedem que a  gestante seja a protagonista do processo.

geleia de frutas vermelhas

Fácil receita de geleia de frutas vermelhas

Garantir uma alimentação saudável para nossos filhos é essencial. Por isso, aqui no blog, vez ou outra, você encontrará receitinhas bacanas para as crianças. São opções saudáveis e fáceis que testo por aqui e compartilho com vocês.

Apesar de gostar muito, não é sempre que consigo tempo para me aventurar pela cozinha. Dia desses vi na  geladeira uma bandeja de amoras e outra de morangos, todos maduros e prontinhos para virarem uma deliciosa geleia. Para adoçar usei apenas um pouco de rapadura ralada, bem mais saudável do que o açúcar. Aí até da para oferecer no lanche de crianças acima de 12 meses.
Se você não tiver a rapadura e quiser outra opção menos trash que o açúcar refinado, pode usar o mascavo ou, até mesmo, o demerara.
Essa receita foi inspirada pelo site Crianças na Cozinha, que recomendo muuuuito!

Ingredientes

1 xícara de amoras
1 xícara de morangos (de preferência orgânicos. Morangos costumam ser campeões no quesito agrotóxico).
suco de meio limão
1/2 xícara de rapadura ralada

Modo de fazer
Coloque em uma panela no fogo baixo os morangos picados e 1/2 porção das amoras picadas. Acrescente a rapadura ralada e o suco do 1/2 limão. Bata a outra porção de amoras no liquidificador com um dedinho de água e acrescente a mistura na panela.
Mexa de vez em quando. As frutas vão se desfazer e o caldo começará a ser formado. Um incrível perfume de geleia de frutas vermelhas irá invadir sua casa. Você notará quando a mistura se transformar em geleia, ficará viscosa e com uma cor linda. Deixe esfriar e coloque em um frasco de vidro na geladeira.
Deliciosa para ser servida com torrada, pãozinho, pão de queijo e queijo branco.

Espero que gostem😉

doula-pos-parto
Os primeiros dias em casa com o bebê não costumam ser muitos tranquilos.

As mulheres estão sensíveis emocionalmente por conta das alterações hormonais, muitas sentem dores causadas pela cesárea e algumas estão extremamente cansadas pelo trabalho de parto.

Aquele bebê tão pequenino que acabou de chegar e depende completamente dela, está passando pelo quarto trimestre (conhecido como período de extero-gestação) e tem grande necessidade de atenção. É muito normal sentir-se insegura nessa hora, com dúvidas essenciais sobre como amamentar e cuidar dele.

O pai, também imerso em novos sentimentos, tenta entender qual é o seu lugar nessa nova situação e de que forma pode ajudar sua companheira.

Se há um filho mais velho, existe ainda a necessidade de incluí-lo e saber como lidar com o ciúmes natural.

E, além de tudo isso, existem as questões com família e visitas. Como lidar com tanta gente querendo conhecer o bebê?

É neste cenário de adaptações e descobertas que o trabalho da doula pós-parto acontece. Sua principal função é dar apoio físico e emocional à mãe.

Mas não se trata de uma enfermeira ou babá que vêm para cuidar do bebê. O foco da doula são as necessidades primordiais da mulher que acabou de dar à luz. Seu principal papel é empoderar a nova mãe , mostrando o quanto está em sua própria natureza ter todas as condições de cuidar do seu filho. A mulher é encorajada a cuidar do bebê e de si própria.

Para isso, a doula traz sugestões de cuidados com o bebê e estratégias para mobilizar familiares e estruturas para darem à mãe o apoio necessário.

>> Algumas das tarefas da doula:
Auxílio para elaboração do plano pós-parto
Orientações para o início da amamentação
Sugestões de cuidados com o bebê (banho, uso de carregadores, formas de acalmá-lo, rotina de sono)
Acolhimento emocional da mãe sem julgamento
Dicas de como inserir o filho mais velho e o parceiro neste novo cenário familiar
Orientações sobre como mobilizar a família para ajudá-la
Orientação nutricional e dicas para facilitar o preparo dos alimentos
Massagem para relaxamento da mãe

A doula também pode auxiliar a mãe em meio ao caos dos primeiros dias como no preparo de alguma refeição (no caso dela ainda não ter conseguido se alimentar), organização das coisas do bebê, olhar o pequenino enquanto ela consegue tomar um banho tranquila, ou fazer as unhas, por exemplo. Aquele tipo de coisa que quem já teve filho sabe muito bem que às vezes parece impossível de fazer nas primeiras semanas, sabe?

Essa é uma ajuda tão bacana que pode, por exemplo, ser dada por amigas da gestante como presente no chá de bebê (vale doula pós-parto).

As doulas pós-parto são muito comuns nos Estados Unidos e na Europa. E os benefícios de seu apoio durante o início do puerpério têm sido destacados como a diminuição da incidência de depressão pós-parto, maiores chances de sucesso na amamentação, facilidade da adaptação da família com o bebê, pais mais seguros.

Quando contratar a doula pós-parto?

O ideal é que ela seja contratada ainda durante a gestação. Porque é possível conhecê-la melhor em um bate papo gostoso, trocar ideias a respeito daquilo que é importante preparar para achegada do bebê e preparar em conjunto um plano pós-parto. A doula ficará disponível para você nas semanas próximas à data provável de parto.

Mas ela pode ser contratada a qualquer momento, mesmo que o bebê já tenha nascido. Muitas vezes a mãe se vê solitária e insegura precisando de ajuda com urgência.

Cada profissional tem características próprias de trabalho. Pode-se iniciar a contratação de uma doula pós-parto por 3 horas, durante 2 dias, por exemplo. O que pode ser perfeitamente prorrogado se houver a necessidade. Outras profissionais estarão disponíveis para passar períodos de 8 horas com a família, 6 dias por semana.

Como contratar uma doula pós-parto?

Se você tiver interesse em contratar uma doula pós-parto entre em contato comigo. Logo teremos uma página na internet com a indicação do nosso trabalho, mas, enquanto isso, posso indicar colegas que estejam mais próximas da sua residência.

Cena do reality show com mães e bebê do programa Mais Você: mães reclusas e infantilizadas

Cena do reality show com mães e bebês do programa Mais Você: mães reclusas e infantilizadas

O programa Mais Você da apresentadora Ana Maria Braga está com um quadro bizarro com H maiúsculo (piadinha esta do H por conta de um fora dado pela Ana Maria durante um de seus programas).

Nele, mães e crianças entre 1 e 2 anos participam de um reality show confinadas entre uma casa e um quarto de hotel. Sim, a exemplo de outros realities, elas competem entre si para ver quem permanecerá na casa para ganhar o prêmio em dinheiro e participar da campanha publicitária da marca de pomadas patrocinadora do show.

Triste demais ver crianças retiradas de suas casas, longe dos pais, sentindo todo o estresse que suas mãos estão passando por conta da competição. Nada saudável. Nada respeitoso. Exposição muito desagradável, aliás.

Mas o que levou os olhares direto para o quadro foi a participação constrangedora do educador Marcelo Bueno. De forma absurda e desrespeitosa ele disse às mães que estão na casa (e a todas as telespectadoras) que ainda amamentam seus filhos que devem realizar o desmame abrupto assim que seus filhos começam a andar. Com aquela velha história mentirosa de que a criança fica mais dependente da mãe e de que o leite não serve mais como alimento.

Além de ter sido bastante desagradável, o tal educador foi contra todas as recomendações da OMS, UNICEF e Ministério da Saúde. Todos eles incentivam a amamentação exclusiva até os 6 meses e prolongada até os 2 ANOS OU MAIS. Aliás, hoje já se sabe que o desmame nos humanos deveria ser entre os 2,5 e 7 anos de idade. E isso é uma média, claro, porque cada caso é um caso e deve ser respeitado.

Se formos falar de valores nutricionais, então, vemos o quanto o moço está completamente desinformado:
“As crianças que mamam no peito após um ano de idade, no mínimo duas vezes ao dia, conseguem garantir pelo menos 40% das necessidades nutricionais diárias. Além disso, as mães continuam garantindo uma ótima produção de anticorpos para defender essa criança de doenças.” esclarece Sônia Salviano, coordenadora da Política Nacional de Aleitamento Materno do Ministério da Saúde. Escrevi uma reportagem muito bem repercutida para o Bebe.com onde falo sobre a amamentação prolongada, leia aqui.

O educador também mostrou possuir dons de vidência quando disse que sabe que as mães querem desmamar seus filhos. Não foi o que notamos ao vê-las incomodadas e uma delas chorando depois de sua abordagem desastrosa #fail

Vimos o efeito disso naquele pequeno confinamento. Não sabemos como foi para outras tantas mães que amamentam alegremente seus filhos e assistiram a aquele show de horrores. Perigoso, absurdo, um desserviço. Enquanto lutamos para conscientizar a sociedade sobre os benefícios da amamentação (inclusive prolongada), vem um educador em rede nacional para destruir tudo. Um crime, convenhamos.

Fico pensando se é esta a imagem que os patrocinadores querem vincular às suas marcas: tamanho desacordo com as orientações em saúde pública.

Não assisti, mas fiquei sabendo sobre uma nutricionista que participou deste reality indicando o consumo de açúcar refinado por estes bebês. Oi? Alguém ai leu a Cartilha do Ministério da Saúde sobre alimentação saudável para os primeiros anos de vida? Falta de critério total da produção do programinha, hein?

Mas quero abordar aqui um outro assunto, tão importante quanto a amamentação: a infantilização das MÃES. Aliás, o que esperar de um programa onde o um fantoche de papagaio dá dicas “incríveis” para as mulheres, né?

Aquelas mães foram obrigadas a ouvir as orientações a respeito de uma situação íntima e pessoal de um homem que não é, sequer, um especialista em aleitamento materno. Aliás, duvido que elas tenham manifestado a menor vontade de desmamarem seus filhos antes desse episódio.

Tratadas como alunas em uma sala de aula, como crianças que devem ouvir e obedecer, como pessoas frágeis e sem opção de escolha.

Se você acha isso um absurdo, saiba que é exatamente o que acontece na maioria dos casos quando, por exemplo, uma mãe entra na sala do pediatra e ouve:
>> mãezinha, você tem que
desmamar seu filho
deixá-lo dormindo no berço sozinho
dar a ele todas as vacinas
dar uma vitamina porque ele está meio abaixo da média da curva de crescimento
entrar com complemento porque seu leite é fraco

Ou quando a gestante entra no consultório obstétrico e ouve:
>> mãezinha, você tem que
cuidar do enxoval que do parto cuido eu
vamos falar do parto só no final da gravidez
puxa, como você tem a bacia estreita
você não quer que seu bebê entre em sofrimento, né?
você sabe que o parto normal acaba com sua área de lazer?

Mãezinha não, nunca, jamais! Somos mães dos nossos filhos e qualquer outra pessoa deve nos chamar por nossos nomes, respeitando nossa individualidade.

Chega de infantilizar as mulheres na tentativa de que elas tenham apenas atitudes passivas.

O papel de qualquer profissional é compartilhar informação de qualidade, baseada em evidências. Chega de achismos, chega de privilegiar a conveniência do profissional em detrimento dos direitos de suas pacientes.

Cabe a nós, tomarmos as decisões, não aos profissionais. E a nossa maior arma contra esse tipo de abuso é a informação!

oculos-crianca-oftalmologista

Bibi tinha quase um ano quando o pediatra nos aconselhou: “A Sociedade Brasileira de Pediatria passou a recomendar que as crianças façam uma primeira avaliação no oftalmologista após completarem um ano de idade.” Como já conhecíamos uma especialista em crianças, agendamos a consulta de rotina.

Confesso que fiquei bastante comovida com o diagnóstico da médica: Gabriela já tinha miopia. Na hora precisei conter as lágrimas. Não pelo fato de saber que ela teria que usar óculos porque isso não é um problema (obviamente, iria preferir que não fosse necessário). Mas por saber que ela tinha uma dificuldade para enxergar que eu nunca havia notado. Coisa de mãe que quer sempre estar no controle de tudo, proteger de todas as formas. Por não se tratar de um grau elevado, a oftalmologista disse que não seria necessário usar óculos antes dos 3 anos, apenas deveríamos fazer um controle semestral para avaliar a progressão da miopia.

De fato Gabi sempre enxergou muito bem. Nunca a vi forçando os olhinhos para ver nada. Nunca notei qualquer problema em enxergar objetos mais distantes.

Os 3 anos chegaram e fomos fazer a avaliação que nos mostraria ao certo o grau que ela tem. No consultório, sentada naquela cadeirona preta, Gabi observava a letra E na parede enquanto segurava uma outra letra E. Ela deveria mostrar com a letra que estava em suas mãos a posição da letra projetada (em pé, deitada, ao contrário). No começo, a letra estava em tamanho grande e Gabi conseguia reproduzir sua posição. Mas a letra foi diminuindo e chegou o momento em que ela parou e ficou pensativa. A médica perguntou se ela estava enxergando a letra E e minha mocinha disse que não. Como da primeira vez, fiquei emocionada. No exame mais detalhado a conclusão: astigmatismo e miopia no olho esquerdo, nada no direito. Então, entendi perfeitamente porque nunca havia notado a dificuldade, ela compensava com o olho que enxerga sem alterações.

Nunca mostramos o fato de usar lentes corretivas como algo negativo para a Gabi. Até porque o Rodrigo usa o tempo todo e eu, em alguns momentos. Fizemos a maior festa no dia em que fomos escolher a armação. Aliás, foi ela quem as escolheu. Fizemos duas: uma de silicone para correr e ir para a escola e outra convencional, toda cheia de brilhinhos. Eu aproveitei e fiz um novo óculos para mim. Saímos as duas de óculos da ótica. Nada melhor do que o exemplo para incentivar. A adaptação tem sido muito boa. Ela sabe que enxerga melhor assim e usa os óculos.

Quero muito chamar a atenção de todos para a importância de levar as crianças logo após o primeiro ano de vida ao oftalmologista. Assim como o nosso, o pediatra da minha sobrinha também deu a mesma orientação. Mas fiquei muito surpresa ao procurar a Sociedade Brasileira de Pediatria e ser informada que eles desconhecem essa afirmação. Disseram que o próprio pediatra precisa fazer os exames e só encaminhar a criança ao oftalmologista se observar alguma alteração. A questão é que nem todos estão preparados para observar problemas de refração e podem não perceber que a criança precisa de ajuda.

A Caderneta de Saúde da Criança, feita pelo Ministério da Saúde, cita o teste de acuidade visual que deve ser feito aos 4 anos de idade e diz que, em geral, deve ser realizado na escola. Eu não conheço esse procedimento.

O fato é que se eu não tivesse levado Gabriela apenas por rotina ao oftalmo quando ela tinha 1 ano, não teria descoberto sua necessidade por lentes. No caso dela, então, seria bastante sério pois, já que possui um dos olhos com visão 100% nítida, o cérebro passa a ignorar o olho míope e só usa o outro. Se esta situação persiste até os 7 anos, torna-se irreversível.

Por isso posto hoje este texto para estimular os pais a levarem precocemente seus filhos ao oftalmologista. Se descobrirem que está tudo ok, ficarão mais tranquilo. Se observarem alguma alteração poderão tratá-la sem prejuízos à visão do seu filho.

Se você tiver alguma informação sobre aquela orientação oficial de levar a criança com um ano ao oftalmo ou sobre os testes em consultórios pediátricos e escolas, coloque nos comentários para que possamos entender melhor esse processo.

Assistir ao documentário Violência Obstétrica – A Voz das Brasileiras, me fez ver o quão perto eu estive de ser uma vítima deste tipo de atendimento tecnocrata e hostil da obstetrícia no Brasil. Ouvir a história daqueles mulheres me fez perceber que, por um muito pouco, eu poderia ter participado do vídeo, com feridas físicas e emocionais, tais como as delas.
Hoje, percebo que, de certa forma, também, estava a ser violentada. Mas consegui mudar o rumo de nossa história. E o antídoto para este veneno chama-se informação.
Minha antiga médica obstetra dizia que só deveríamos conversar sobre o parto no final da gestação. Fugia das perguntas que eu sempre fazia a respeito dele e isso me incomodava demais. Até que um dia, depois de ler muito sobre partos naturais, comecei a cobrar respostas efetivas.
Eu: Você faz episiotomia de rotina?
Ela: Sim, não faço partos sem episio. Do contrário você ganharia sérios problemas de incontinência urinária.

Eu: E eu posso me movimentar durante o trabalho de parto?
Ela: Claro. Pode ficar na bola, na banheira… Mas no expulsivo precisa ficar deitada na cama.

Eu: E se eu não quiser tomar anestesia…
Ela: Sou sua amiga e vou te dar anestesia de qualquer jeito.
Eu: Eu não gostaria de fazer uso de ocitocina durante o parto, pode ser?
Ela: Ela é fundamental para ritmar suas contrações e torná-las efetivas. Vamos usá-la.

Eu: E se minha bebê não nascer até a 40ª semana? Posso esperar até 42?
Ela: Não. O único caso que me aconteceu assim, chegou até 41, mas fiz a mãe assinar um termo de responsabilidade pela vida de seu filho. O que podemos fazer se chegar na 40ª semana é tentar uma indução.

Eu: Mas quanto tempo você espera o trabalho de parto transcorrer sem me levar para uma cesárea?
Ela: No máximo 6 horas de indução. Depois disso se torna muito perigoso para o seu bebê.Puxa, você andou lendo, né?

Sai do consultório arrasada. O parto seria do jeito dela. Já me via deitada na cama, pernas no estribo, sem sentir as contrações, levando um belo corte do períneo e com alguém subindo em minha barriga para fazer manobras de Kristeller. Era exatamente o cenário que eu mais temia (depois da cesárea). Eu precisava encontrar uma saída, tinha certeza que o parto da Gabi seria um evento lindo e não traumático.
Foi neste momento que marquei uma consulta com minha atual médica. E sai de lá suspirando. Ela disse que o parto seria meu, eu tomaria as decisões, ela estaria lá só para me ajudar no que eu precisasse. Nunca mais voltei no outro consultório, ela nem me ligou para saber se eu bem… com certeza, sentiu em meus questionamentos que eu não estava feliz com seu protocolo de atendimento ao parto.

E não pensem que ela fazia dessa forma por causa dos valores do convênio. Apesar de me atender por ele, cobrava o parto por fora (a até hoje não sei o valor porque ela dizia que conversaríamos sobre o valor mais pra frente – quando eu não tivesse mais como voltar atrás???).
Pois bem. Gabi nasceu com quase 42 semanas de gestação. Em um trabalho de parto que durou umas 6 horas… Ou seja, as chances de eu ter parado em uma cesárea desnecessária eram totais. Afinal de contas, se ela induzisse o parto com 40 semanas, possivelmente ele teria durado bem mais de 6 horas.
Além disso, Gabi poderia ter ido direto para a UTI. Sim, porque o trabalho de parto só acontece quando o bebê está pronto para nascer e seu pulmão começa a liberar substâncias que fazem com que a mulher entre em trabalho de parto. Ela poderia ter sido arrancada do meu útero sem estar com seu pulmão completamente maduro. Pela DUM eu estava quase na 42ª semana, mas ela nem sempre está de acordo com a realidade do bebê. Por isso, passar da 40ª é muito normal.
Dá para entender como é sério essa história recorrente de se agendar cesáreas eletivas?

A violência obstétrica que sofri foi apenas através das ameaças por um parto cheio de intervenções. Mas poderia ter se tornado efetiva. Vi isso através da história das mulheres daquele documentário.
E afirmo, com toda a certeza, que a vacina contra esse mal foi a informação de qualidade. E é por ela que tenho lutado. É por ela que este blog existe hoje. É por ela que tenho me especializado a cada dia mais.

Quero levar informação para que outras mulheres tenham a mesma chance que tive de mudarem seus destinos. Quero que outras mulheres tenham o direito a fazerem suas próprias escolhas sem medo das ameaças infundadas dos médicos. Quero ajudar outras mulheres a se emponderarem e fugirem de sofrerem a violência obstétrica.
Esse é um trabalho de formiguinha. Mas estou completamente apaixonada, e não vou desistir.

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